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Segunda-feira, Março 28, 2005  
O DIREITO AO FODA-SE
(Pedro Ivo)
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o latim vulgar será esse o português vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a vulgarização do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.
"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz idéia de maior quantidade do que "pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática, física. A Via Láctea tem estrelas "pra caralho", o Sol é quente "pra caralho", o Universo é antigo "pra caralho", eu gosto dela "pra caralho", entende?
No mesmo gênero mas, no caso, expressando a mais profunda negação está o famoso e crescentemente utilizado "nem fodendo!" Que, nem o "não, não e não" e nem tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "não, absolutamente não!" substituem. O "nem fodendo" é irretorquível, liquida o assunto. Te libera, com a consciência e o ego tranquilos, para outras atividades de maior interesse em sua vida.
Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro para ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um "Huguinho, preste atenção filho querido: NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o novo CD do Caetano.
Por sua vez o "porra nenhuma" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional.
Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PHD porra nenhuma!", "ou ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês vêem, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e mais recentemente o "prepone", presidente de "porra nenhuma".
Há outros palavrôes igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "puta-que-pariu!" ou de seu correlato "puta-que-o-pariu!", falados assim, cadencialmente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cú!"? E de sua maravilhosa derivação "vai tomar no olho do seu cú!". Você já imaginou o bem que você faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "chega! quer saber de uma coisa? vai tomar no olho do seu cú!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar fime, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor -íntimo nos lábios.
Seria tremendamente injusto, em que pesem ainda inexplicáveis e preconceitousas resistências à sua palavra-raiz, não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do português vulgar:"embucetou!" e sua derivação mais avassaladora ainda: "embucetou de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão inclusive que, uma vez proferida, insere seu autor em um todo providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como o comentário de um vizinho para sua esposa ao sacar que no auge da violenta briga do casal da residência ao lado chegam de súbito a amante, o filho espúrio e o cunhado bêbado com o exame de DNA: "Fecha a porta que embucetou de vez!".
O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima e me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta!. "Não quer sair comigo? Então, foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então, foda-se!".
O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na constituição brasileira. Liberdade, igualdade, fraternidade e "foda-se!"

3/28/2005 12:11:00 PM

 
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